Autor
DEISY BOROVIEC
Erika Hilton e o avanço necessário na política de gênero no Brasil
A eleição de Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados não é apenas um fato político — é um marco histórico que revela, ao mesmo tempo, avanço institucional e amadurecimento democrático. Em um país ainda profundamente marcado por desigualdades de gênero, raça e classe, sua chegada ao comando de uma das comissões mais sensíveis do Parlamento representa mais do que simbolismo: representa direção.
Desde sua criação, em 2016, a Comissão da Mulher tem desempenhado um papel fundamental na consolidação de políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência, à promoção da autonomia feminina e à ampliação de direitos. Ao longo dos anos, diferentes gestões contribuíram para avanços importantes, da estruturação inicial ao fortalecimento da rede de proteção, passando pela tipificação da violência psicológica e pela ampliação dos mecanismos de denúncia. Mas a política, como a sociedade, não é estática. Ela precisa evoluir para responder às novas demandas sociais. E é justamente nesse ponto que a presidência de Erika Hilton se torna tão relevante.
Sua trajetória política é atravessada por temas que, por muito tempo, foram ignorados ou tratados como marginais no debate institucional. Ao assumir a comissão, ela amplia o escopo da discussão sobre os direitos das mulheres, incorporando de forma mais explícita a perspectiva da interseccionalidade — ou seja, reconhecendo que as violências não atingem todas da mesma maneira. Mulheres negras, periféricas, indígenas e, especialmente, mulheres trans enfrentam camadas adicionais de exclusão e vulnerabilidade que precisam ser consideradas na formulação de políticas públicas.
Criticar sua eleição com base em preconceitos ou desinformação não apenas empobrece o debate público, como revela a resistência de setores da sociedade em aceitar que a política deve representar a diversidade real do país. A presença de Erika Hilton na presidência da comissão não retira direitos de ninguém. Ao contrário: amplia o alcance das políticas e fortalece o compromisso democrático com a igualdade.
Além disso, sua atuação reforça um ponto essencial: o combate à violência de gênero exige atualização constante. Os dados recentes, como o aumento dos casos de feminicídio em estados como Mato Grosso, demonstram que os instrumentos existentes ainda são insuficientes. É preciso ir além — integrar políticas, ampliar o acesso, considerar diferentes realidades e, sobretudo, ouvir quem historicamente foi silenciado.
Erika Hilton traz consigo essa possibilidade de escuta ampliada. Sua presidência sinaliza que o enfrentamento à violência contra a mulher não pode ser seletivo nem limitado a um único perfil. Ele precisa ser abrangente, inclusivo e conectado com a complexidade da sociedade brasileira. Defender sua eleição, portanto, não é apenas apoiar uma figura política. É defender a ideia de que a democracia se fortalece quando inclui, quando se reinventa e quando tem coragem de romper com padrões excludentes.
Antes de atacar, é importante reconhecer que a trajetória dessa comissão não começou nesta semana. A comissão foi construída por diferentes lideranças ao longo dos anos, como Gorete Pereira, que deu o pontapé inicial na implementação dessa comissão em 2016. Shéridan (2017), ampliou o debate sobre o feminidício, bem como criou projetos voltados à proteção das vítimas. Ana Perugini (2018), incentivou a política de acolhimento e trouxe ao debate as casas-abrigo para mulheres vítimas da violência. Luiza Canziani (2019), levantou pautas voltadas à inserção da mulher no mercado de trabalho e incentivo à autonomia econômica feminina.
A professora Dorinha Seabra Rezende (2020) ampliou canais de denúncias durante a pandemia da Covid19. Elcione Barbalho (2021) esteve na presidência quando a violência psicológica entrou na lei brasileira. A policial Katia Sastre endureceu medidas contra agressores, Lêda Borges (L2023) integrou segurança pública e assistência social. Ana Pimentel (2024) trouxe a luz sobre o debate orçamentário e financiamento de políticas para as mulheres. Célia Xakriabá (2025), incluiu mulheres indígenas e tradicionais nas políticas públicas, bem como apresentou as lentes da interseccionalidade (raça, gênero, território). Em um país onde mulheres ainda morrem por serem mulheres, ampliar vozes, perspectivas e experiências não é excesso — é necessidade. E, nesse contexto, a presidência de Erika Hilton não é apenas legítima. É urgente.
Deisy Boroviec -Mestranda em Comunicação e Poder na UFMT